Na página sobre Ensino remoto relato minha experiência incipiente, mas crescente, com ferramentas e técnicas para ensino remoto, impulsinada pela pandemia COVID-19.

Quero aqui considerar um cenário bem diferente. Desde 2018, sou o coordenador regional do Programa de Iniciação Científica Jr. da OBMEP, para a regional SP03, que abrange 150 cidades no interior paulista. Em 2020, temos 290 alunos de mais de cem cidades do interior de São Paulo. Como temos apenas dois polos para aulas presenciais, em Campinas e em Americana, por volta de metade desses alunos está longe demais para participar presencialmente. Esses alunos participam do PIC na modalidade virtual. Porém a quaretena imposta em 2020 pela pandemia COVID-19 colocou todos os 290 em participação na modalidade virtual.

Vou relatar como estamos organizando o PIC em 2020.

Do ambiente virtual

Adotamos o Slack como nosso ambiente virtual centralizador. O Slack funciona para troca de mensagens instantâneas (como o Whatsapp), mas tem histórico, permite abrir conversas e fazer busca por conteúdos, montar canais específicos, agregar outros aplicativos, etc.

Usar o slack trouxe muitas vantagens em relação aos anos anteriores. O recurso de criar canais de discussão mimetiza, no mundo virtual, o papel de salas físicas. Temos o canal mural, que usamos para passar informações gerais a todos os alunos. Um canal chamado outros-assuntos permite discussões livres e simula o pátio da escola, onde todos transitam. Temos salas para cada turma do PIC, com até 20 alunos e um professor, mas também temos uma sala para cada polo do PIC, congregando todos os alunos e professores do polo, e uma sala para cada nível de PIC. Por fim, temos a sala da secretaria, para assuntos burocráticos.

Cada membro do slack, além do nome, pode acrescentar uma foto e uma frase de descrição ao seu perfil. Particularmente a foto é interessante pois aumenta a sensação de proximidade e familiaridade dos alunos e professores.

Nos dias de aula, os alunos entram no ambiente e podem interagir com os colegas. No momento da aula, o professor compartilha um link para a videoconferência e convoca seus alunos. Esses links são perenes, assim como salas físicas, mas só estão ocupados nos momentos de aula.

Fora dos dias de aula, o slack também pode ser usado como ponto de encontro, sem a necessidade de agendamento, e como canal contínuo para comunicação. No momento em que escrevo esse relato, com aproximadamente duas semanas de uso do slack, 4790 mensagens já foram trocadas. A ferramenta de análise do slack informa que 88% da mensagens foram enviadas diretamente a membros e não em canais públicos. Isso significa que o ambiente de fato está servido para que os aluno interajam entre si. Pelo lado da leitura, um terço das mensagem foram lidas em canais públicos, o que significa que também estamos conseguindo passar informação aos alunos.

O fato de usar o slack, com essa semântica de um ambiente físico no mundo virtual, quebrou um pouco a sensação de distanciamento que a situação naturalmente impõe.

Da infraestrutura para aulas ao vivo

A ferramenta escolhida para videoconferência foi o Jitsi Meet. Eu já utilizava o Google Hangout Meet e o Zoom. Essas duas opções são ferramentas pagas. O Jitsi por sua vez é software livre, seguro, e disponível para todos. Tem todos os recursos importantes que precisamos. Criar uma sala de conferência é instâneo no Jitsi, não requer conta ou qualquer registro. Com isso, é muito fácil durante a aula separar alunos em grupos, por exemplo. É possível definir uma senha para entrar na sala, tem chat integrado, capacidade de compartilhar tela, ferramenta para silenciar a sala toda de uma vez, entre outros recursos.

Rodar o Jitsi não requer a instalação de software algum no computador. Para celular é preciso instalar um aplicativo ( / ), como acontece com as outras ferramentas de videoconferência. O número de participantes em uma mesma sala de videoconferência é limitado a 50, mas nossas salas de aula não ultrapassam 25. Até agora o Jitsi tem nos atendido muito bem.

Da dinâmica das aulas ao vivo

Nas aulas do PIC os alunos trabalham com listas de exercícios. Não há grande parte expositiva, mas sim trabalho em grupo e discussões gerais.

Os professores são orientados a preparar material de apoio para cada exercício que for trabalhado em sala. Alguns deles preparam gráficos ou esboços no Geogebra, que podem ser compartilhados pela tela. Outros preferem manter uma câmera apontada para lousa ou papel, e escrever ao vivo, ou mesmo usar uma "lousa virtual" através do programa Xournal++. Temos ainda professores que trazem vídeos com resoluções gravadas. Todos esses recursos são utilizados sob demanda e cada professor tem a liberdade de experimentar o meio ao qual melhor se adapta.

Para manter a turma toda mais ou menos no mesmo compasso, o professor não fornece a lista inteira no início da aula, mas sim vai apresentando os exercícios gradativamente. Os alunos têm tempo para individualmente trabalhar e depois podem discutir em grupos. Para isso, são criadas salas de aula no Jitsi onde os alunos se distribuem em grupos com até 3 alunos. O professor pode transitar entre as salas de grupos verificando se há necessidade de alguma intervenção. Depois disto, todos se reunem novamente na sala de aula comum, onde um aluno ou grupo é convidado a apresentar sua resolução. A sala inteira pode discutir o exercício e esse é o ponto alto da aula.

Sobre a separação da sala em grupos, cabe destacar uma dificuldade. Alunos participando apenas com celular têm menos "mobilidade" entre a sala principal, sala de grupo e slack, dado que esse ambientes não ficam abertos em simultâneo no celular. Os professores têm lidado com isso formando grupos onde sempre que possível haja algum aluno acessando os ambientes através do computador. Desta forma, este aluno comunica aos colegas algum aviso que tenha surgido na sala principal ou no slack, por exemplo.

Dos períodos entre aulas

As aulas dos PIC, a grosso modo, acontecem a cada duas semanas. Nos intervalos, para manter a motivação e o engajamento dos alunos, os professores enviam aos alunos regularmente pequenas doses de sugestões de textos, vídeos, ou outros materiais. Como no slack temos os grupos de alunos separados por níveis, os professores de um mesmo nível cooperam na seleção e envio desses materiais a todos os alunos do nível.

Seria bom que os alunos se acostumassem a discutir os exercícios também nos canais da turma ou mesmo no canal do nível, fora dos horários de aula. No entanto isto ainda não vem acontecendo. As dúvidas têm sido resolvidas com trocas de mensagens diretas entre aluno e professor e, talvez, entre trocas de mensagens privadas entre alunos.