Foram muitas as tentativas de generalizar os complexos para três dimensões, pretendia-se uma estrutura algébrica que efetuasse naturalmente as reflexões, rotações, outras isometrias e similaridades no espaço tridimensional.
A forma pela qual se tentava a generalização, hoje entende-se bem, não era
possível, em três dimensões não há uma álgebra com a maioria das propriedades
interessantes dos complexos. Mas em quatro dimensões isto é possível e esta
alternativa foi encontrada naturalmente. Os quatérnios foram descobertos
por Hamilton, se os complexos são identificados com vetores no
q = q0 + i q1 + j q2 + k q3 ,
onde q0, q1,q2 e q3
são números reais. O conjunto dos quatérnios é por vezes denotado por IH em
homenagem a Hamilton. Somamos os quatérnios como se fossem vetores do
Analogamente às partes real e imaginária dos complexos, identificamos duas partes em um quatérnio q, estas são chamadas de parte escalar S(q) e parte vetorial V(q) do quatérnio dado, definidas por
S(q0 + i q1 + j q2 + k q3)
= q0 ,
V(q0 + i q1 + j q2 + k q3) =
i q1 + j q2 + k q3.
Dizemos que o quatérnio q é puramente vetorial quando
Os quatérnions puramente vetoriais são identificados com os vetores do espaço
tridimensional euclideano da nossa percepção. Os quatérnios puramente escalares,
apesar de serem vetores, agem como escalares no produto quaterniônico que
definiremos mais abaixo. Por isto os quatérnios puramente escalares são
identificados com os escalares ou números reais, e a dimensão correspondente à
parte escalar de um quatérnio será vista apenas como uma dimensão auxiliar.
Assim podemos pensar que o espaço vetorial
Neste espírito empregaremos a seguinte notação, denotando as partes
escalar e vetorial de um quatérnio pelas formas minúscula e maiúscula de
uma mesma letra, i.e.,

e vemos os quatérnios como somas formais de escalares, habitantes de uma quarta dimensão auxiliar, com vetores usuais do espaço tridimensional. Este ponto de vista nos traz de volta à terceira dimensão, é como se um quatérnio fosse um par de dois elementos, um escalar e um vetor tridimensional.
O produto quaterniônico
| 1 | i | j | k | |
| 1 | 12=1 | 1 i = i | 1 j = j | 1 k = k |
| i | i 1 = i | i2 = -1 | i j = k | i k = -j |
| j | j 1 = j | j i = -k | j2 = -1 | j k = i |
| k | k 1 = k | k i = j | k j = -i | k2 = -1 |
As três unidades imaginárias têm quadrado igual a -1, como a unidade
imaginária complexa. Os quatérnios da forma
Quando as unidades imaginárias distintas são multiplicadas entre si, tal se
dá como no produto vetorial tridimensional que hoje empregamos. Porém, no tempo
da descoberta dos quatérnios, o produto vetorial não havia sido inventado. Já
havia um tal produto de Grassmann, semelhante ao produto vetorial, mas
conceitualmente bem diferente deste último. O produto quaterniônico não é
comutativo, pois
Assim definido, o produto é feito empregando a distributividade, as definições da tabela acima e finalmente reagrupando termos, de forma semelhante à que fazemos no caso dos complexos. Por exemplo,
(1 + 2 i + 3 j - k) (0 + i - j + 0 k) =
(1) (i) + (2i) (i) + (3j) (i) + (-k) (i) + (1) (-j)
+ (2i) (-j) + (3j) (-j) + (-k) (-j) =
i - 2 - 3 k - j - j - 2 k + 3 - i = 1 + 0 i - 2 j - 2 k .
Quando escrevemos dois quatérnios

De fato, assim descrito, o produto quaterniônico é reduzido a produtos bem conhecidos dos vetores em três dimensões, além do produto entre as partes escalares, que é o mesmo que o produto entre números reais, resultando em ab, temos:
Desta forma, o produto quaterniônico, apesar de se dar em quatro dimensões, é composto essencialmente por produtos conhecidos, os produtos de escalar por escalar, vetor por escalar, escalar de vetores e vetorial de vetores do espaço tridimensional usual.
Escrevemos portanto,
q r = (a + A) (b + B) = {a b - (A • B)} + {a B + b A + A x B} (£)
e afirmamos que:
S(q r) = S(q) S(r) - V(q) • V(r) ,
V(q r) = S(q) V(r) + S(r) V(q) + V(q) x V(r) .
Quando efetuamos o produto de dois quatérnios puramente vetoriais, temos:
(0 + A) (0 + B) = - A • B + A x B ($)
assim os produtos escalar e vetorial podem ser (e foram várias
vezes) definidos como o negativo da parte escalar e a parte vetorial,
respectivamente, do produto quaterniônico de dois quatérnios puramente vetoriais.
Decorre daí que o produto quaterniônico é anti-comutativo para quatérnios puramente
vetoriais ortogonais (quando
A medida da não comutatividade do produto quaterniônico é dada por
Os quatérnios puramente vetoriais de parte escalar zero, da forma
O subespaço bidimensional

Notem que i , j , k são casos especiais de vetores unitários, que
geram os espaços bi-dimensionais dos quatérnios das formas
Notamos que se
desta forma o produto quaterniônico segue, em qualquer base
ortornormal positivamente orientada do espaço tridimensional usual,
mutatis mutandi, as mesmas regras dos produtos entre os elementos da base
Definimos de início o produto quaterniônico como sendo um produto linear
dos quatérnios envolvidos, linear em cada um deles, para o qual valiam as certas
regras multiplicativas dadas pela tabela acima. Primeiro notamos que poderíamos
ter empregado qualquer base ortonormal e positivamente orientada
O produto quaterniônico é associativo...

...assim que entramos com os quatérnios no mathematica, o produto é feito com um duplo asterisco.
Temos a associatividade para o produto quaterniônico em quatro
dimensões, apesar da não associatividade do produto vetorial (p.ex.,
Bom... voltando à associatividade, vejamos outras provas feita com menos força
bruta do que a mais acima. Uma primeira alternativa é empregar as idéias de
algebra linear, isto é, em lembrar que a igualdade
Uma segunda prova da associatividade empregas fórmulas clássicas da álgebra vetoria, ela é por si mesma interessante, vejamos as identidades vetoriais às quais recorre. A primeira identidade para a segunda prova é aquela que escreve o duplo produto vetorial em termos de produtos escalares,
A x (B x C) = (A • C) B - (A • B) C (*)
Vamos recordá-la, notamos que

Escrevemos portanto que
A partir da identidade vetorial (*) obtemos outra menos comentada nos cursos de GA. Para tanto escrevemos primeiro todas as permutações cíclicas de (*), obtendo:
A x (B x C) = (A • C) B[3] - (A • B) C[1],
B x (C x A) = (B • A) C[1] - (B • C) A[2],
C x (A x B) = (C • B) A[2] - (C • A) B[3],
onde indexamos os termos opostos apenas para ressaltar, pois agora somamos as três identidades e estes pares de termos serão cancelados. A soma leva a chamada identidade de Jacobi,
A x (B x C) + B x (C x A) + C x (A x B) = 0 (**)
A identidade de Jacobi pode ser entendida como uma fórmula que dá a medida da não associatividade do produto vetorial tridimensional, pois (**) pode ser reescrita da forma:
A x (B x C) - (A x B) x C = (C x A) x B .
As Álgebras de Lie são espaços vetoriais com um produto bilinear que a cada dois vetores associa um terceiro, semelhante ao produto vetorial tridimensional, sendo anti-simétrico, tipicamente não associativo e valendo a identidade de Jacobi.
As expressões (*) e (**), além de terem uma importância própria, permitem uma prova da associatividade dos quatérnios, que assim decorre da identidade de Jacobi para o produto vetorial (**) e da relação deste produto com o produto escalar (*)... bom, vamos lá...
subtraímos os dois termos e ocorrem 11 cancelamentos, alguns por conta das propriedades cíclicas do produto escalar triplo... e os quatro termos restantes são cancelados por conta de (*) e (**), pois destas decorre que...
A x (B x C) - (A x B) x C = - B x (C x A) - (B • C)
A + (A • B) C
...∴ ( q r ) s - q ( r s ) = 0.
... se cometi algum erro nalguma passagem acima, por favor, avisem-me.
Para nossos objetivos, a apresentação dos quatérnios como soma de escalares com vetores no espaço tridimensional é muito boa. Existe uma outra maneira de apresentar os quatérnios, identificado cada quatérnio com um par de números complexos, tal idéia, interessante em física e em várias situações, deriva da seguinte manipulação:
q = q0 + i q1 + j q2 + k q3
= (q0 + i q1) + (q2 + i q3) j,
isto é,
q = z1 + z2 j ,
com z1 = q0 + i q1
e z2 = q2 + i q3 .
Notamos que no espaço quaterniônico quadrimensional, o plano bidimensional
gerado pelos vetores
Por conseguinte a intersecção destes dois subespaços vetoriais ou planos
bidimensionais no espaço quadrimensional é um conjunto unitário, de um só
ponto, cujo único elemento é a origem,

Este esquema lembra muito a maneira pela qual obtemos os números
complexos a partir de pares de reais. Notamos, dado que
q r = (z1 + z2 j) (w1 + w2 j)
= z1 w1 + z2 j w2 j +
z1 w2 j+ z2 j w1
= z1 w1 + z2 (w2)* (j)(j) +
z1 w2 j + z2 (w1)* j
= {z1 w1 - z2 (w2)*} +
{z1 w2 + z2 (w1)*} j .
Fizemos acima a prova da associatividade representando os complexos
como somas de escalares com vetores para poder conversar sobre a identidade de
Jacobi etc... mas talvez fique mais fácil mais fácil provar a
associatividade com a representação dos quatérnios como pares de complexos,
da forma
Bom, voltamos à apresentação que escolhemos, escrevendo quatérnios como
um escalar mais um vetor.
A conjugação quaterniônica de
{(a + A) (b + B)}* = {ab - (A • B) + (a B + b A + A x B)}*
=
= a b - (A • B) - (a B + b A + A x B) = a b - (A • B)
+ (a (-B) + b (-A) + B x A) =
= (b - B)(a - A) = (b + B)* (a + A)*, como foi afirmado.
Efetuando o produto de
um quatérnio pelo seu conjugado temos
Define-se módulo de um quatérnio ou norma quaterniônica de maneira natural,
q -1 = q* / |q|2, para q ≠ 0 ,
como no caso complexo. Esta propriedade faz dos quatérnios o que os matemáticos chamam de corpo. Este talvez tenha sido o principal motivo para que os complexos fossem generalizados para quatro e não três dimensões.
Uma propriedade importantíssima é a de que o produto dos módulos é igual ao módulo do produto de dois quatérnios, tal decorre da cambalhota da conjugação, bem como da linearidade e da associatividade do produto quaterniônico, como vemos...
|q r|2 = (q r) (q r)* = (q r) r* q* = q (r r*) q* = |r|2 q q* = |r|2 |q|2 ⇒ |q r| = |q| |r| (¥).
Desta propriedade, que já tinham os complexos, decorrerão muitas propriedades interessantes e aplicações dos quatérnios.
Uma de suas conseqüências é muito curiosa, chama-se 'teorema dos quatro quadrados (de Euler)'. Tal afirma que, se dados dois números inteiros que foram obtidos cada um deles como a soma de quatro quadrados de inteiros, o seu produto também pode ser escrito como a soma de quatro quadrados de inteiros.
De fato, se são dadas duas somas de quadrados de inteiros,
q r = a0 b0 - a1 b1 -
a2 b2 - a3 b3 +
(a0 b1 + a1 b0 +
a3 b2 - a2 b3) i +...
(a0 b2 + a2 b0 +
a3 b1 - a1 b3) j +
(a0 b3 + a3 b0 +
a1 b2 - a2 b1) k (¢),
e a sua norma quadrada é a soma dos quadrados das componentes de
(a2 + a12 + a22 +
a32) (b2 + b12 +
b22 + b32) =
(a0 b0 - a1 b1 -
a2 b2 - a3 b3)2 +
(a0 b1 + a1 b0 +
a3 b2 - a2 b3)2 +
+ (a0 b2 + a2 b0 +
a3 b1 - a1 b3)2 +
(a0 b3 + a3 b0 +
a1 b2 - a2 b1)2 .
e temos uma fórmula que dá, a partir das duas quádruplas de inteiros, uma quádrupla resultante de inteiros cujos quadrados somados dá exatamente o produto das somas dos quadrados das duas quádruplas dadas (notem que por causa dos complexos existe um teorema dos dois quadrados e acreditem, por conta dos octônios, um teorema dos oito quadrados).
Bom, voltemos à geometria, apresentaremos o que se entende por forma polar
de um quatérnio. Primeiro façamos algumas considerações, dado o quatérnio
Dado que
A dimensão escalar varia entre -|q| e |q|, enquanto que ||A|| varia de zero até |q|, desta forma é suficiente que θ varie entre 0 e 180°, mas é comum deixar este ângulo variar entre -180° e 180°, tal abuso simplifica algumas manipulações algébricas, tal qual a admissão da coordenada radial negativa simplifica manipulações algébricas com coordenadas polares.
Pelo exposto,
q = |q| U(n,θ), com
U(n,θ) = cosθ + n senθ .
O conjunto dos quatérnios unitários forma uma esfera tridimensional S3 dentro do do espaço quadrimensional quaterniônico, análoga a circunferência trigonométrica unidimensional S1 dentro do espaço bidimensional dos complexos.
O equador de S3 é a intersecção desta esfera com o hiperplano tridimensional
dos quatérnios puramente vetoriais, que identificamos com o espaço tridimensional
usual. Tal equador é a esfera bidimensional usual S2, formada pelos quatérnios
unitários puramente vetoriais, os quais têm ângulo azimutal

O produto de dois quatérnios unitários resulta em outro quatérnio
unitário, cada quatérnio unitário
A esfera tridimensional, além de sua estrutura geométrica de superfície, tem uma estrutura algébrica de grupo, estas estruturas são compatíveis num certo sentido e por isto dizemos que S3 é um grupo de Lie. A esfera S1, formada pelos complexos unitários, também é um exemplo de grupo de Lie. Pode-se mostrar que apenas três esferas são grupos de Lie, a faltante é S7 e tal se deve à existência dos octônios.
Quando multiplicamos dois quatérnios na forma polar, vimos que o produto dos módulos é o módulo do produto, como no caso dos números complexos (e o mesmo ocorre com os octônios). Temos:
q r = (|q| U(n , θ)) (|r| U(m , φ)) = (|q| |r|) U(p , ψ)
com U(p , ψ) = U(n , θ) U(m , φ)
e quando
Para o caso geral, ao calcular o produto de dois quatérnios unitários, devemos fazer o produto contido no lado direito da equação:
(cosψ + p senψ) = (cosθ + n senθ) (cosφ + m senφ) ,
depois reagrupar o resultado e finalmente colocá-lo na forma que se apresenta o lado esquerdo da equação.Tendo feito isto, encontramos p e ψ (a partir de n, m, φ e θ).
Trabalharemos muito com estes produtos de quatérnios unitários no tópico seguinte, quando faremos aplicações dos quatérnios às rotações e reflexões em três dimensões, bem como à geometria e à trigonometria da esfera bidimensional usual.
Para finalizar este tópico notamos que, com seu produto e soma, os quatérnios formam um anel. Pelo fato de todos os quatérnios não nulos terem um inverso multiplicativo os quatérnios formam um corpo, tal qual os complexos. Foi a busca destas propriedades e das aplicações geométricas que apresentaremos que levou Hamilton à quarta dimensão.
Pode-se mostrar (página 10 de "Matrix Groups", Curtis, Springer, 1979) que é impossível generalizar os complexos para um corpo em três dimensões.
Dizem que Lorde Hamilton teve a idéia de definir o produto quaterniônico num passeio que fez com a Lady Hamilton em Dublin. Deu-se o tal 'insight' no momento exato que passeavam pela ponte que hoje é chamada de "Quaternion Bridge".

Do outro lado da ponte você encontra uma placa comemorativa da grande descoberta, se nosso genial Pelé fez gol de placa, o genial Hamilton dos irlandeses fez definição de placa, a definição dos quatérnios.

Bom, é verdade que, postulando a associatividade do produto, dá para resumir a tabela multiplicativa nesta curta seqüência de igualdades. O seu bloco de notas foi encontrado, espiem abaixo os garranchos do genial Lorde.

Veremos que podemos efetuar transformações geométricas com os quatérnios, incluindo rotações reflexões etc... no espaço tridimensional usual. Neste contexto, este espaço é identificado com o hiperplano dos quatérnios puramente vetoriais.
Tais resultados, além de terem sido a primeira ferramenta eficaz para o estudo de rotações tridimensionais, permitem várias aplicações à geometria e à trigonometria da esfera bidimensional usual, como veremos no tópico seguinte.