Em clima de Copa, alunos de todo o país analisaram um lance a partir de conceitos de geometria.

Em ano de Copa do Mundo, o país do futebol vive uma grande expectativa. As ruas são pintadas em verde e amarelo e a camisa da Seleção passa a ser o uniforme mais visto pelas cidades. Entrando no clima da competição, a Olimpíada de Matemática da Unicamp (OMU) trouxe para a 1ª fase da prova uma questão que mescla futebol e geometria.
O problema de número 3 tinha uma premissa interessante: fazer com que o aluno assumisse o papel do árbitro assistente de vídeo, popularmente conhecido como VAR (Video Assistant Referee, em inglês). Para isso, os estudantes precisavam analisar um possível lance de impedimento, que ocorre quando um jogador está à frente do penúltimo defensor adversário no momento em que um companheiro realiza um passe em sua direção.
A regra é bastante polêmica, pois os lances de impedimento no futebol profissional são praticamente milimétricos e a perspectiva gerada na torcida — seja pela televisão ou mesmo na arquibancada — acende o debate sobre a legitimidade ou não daquela marcação. Inclusive, as linhas do VAR surgiram justamente para trazer mais transparência nesses casos, pois elas compensam a angulação da câmera e se aproximam do que é visto pelo bandeirinha.
A discussão é tanta em torno do tema, que a International Football Association Board (IFAB), órgão que define as diretrizes do futebol, estuda alterar a regra. Em 2024, a federação aprovou para testes uma proposta sugerida pelo ex-técnico francês Arsène Wenger, que argumenta que o impedimento só se daria quando o atacante estiver totalmente à frente do defensor – atualmente qualquer parte do corpo, excluindo mãos e braços, configura impedimento. A nova regra, denominada Lei Arsène Wenger, começou a ser testada no mês de abril, no Campeonato Canadense.
Essa medida promete eliminar as dúvidas milimétricas, garantindo maior fluidez ao jogo e diminuindo a descredibilização em torno da arbitragem, pois, mesmo com os árbitros e bandeirinhas acertando, justamente a questão da perspectiva nesses lances dá a impressão que foi um impedimento mal marcado.
Outras alternativas também vêm sendo implementadas. Uma delas é o impedimento semi-automático, tecnologia que consiste no mapeamento do campo e rastreamento dos jogadores através de câmeras e inteligência artificial. Essas câmeras fazem uma reconstrução 3D com o posicionamento dos jogadores e enviam essas informações para a cabine do VAR. Por não interferir na regra, diferente da Lei Arsène Wenger, essa técnica é bem mais difundida, já sendo implementada inclusive no Campeonato Brasileiro.
No entanto, mesmo com o avanço da tecnologia e a reformulação das regras, a discussão em torno do impedimento sempre vai existir. E é nessas horas que a Matemática surge para sanar qualquer dúvida.

Assim como a cabine do VAR, a prova, que tem duas fases realizadas de forma online, também se beneficia da tecnologia para sua aplicação. Para a questão em específico, os alunos precisaram utilizar softwares de desenho, como Paint e Photoshop, para simular as linhas de impedimento traçadas pelos árbitros de vídeo.
Segundo Giuliano Zugliani, professor do Instituto de Matemática, Estatística e Computação Científica da Universidade Estadual de Campinas IMECC/Unicamp) e coordenador da OMU, a questão foi pensada para aproximar a Matemática do estudante. “Nós sempre afirmamos que a Matemática está em tudo – e de fato está – mas é nosso papel trazer problemas contextualizados à realidade do aluno para evidenciar isso, e o futebol, além de ser algo comum no cotidiano do brasileiro, também dialoga com a atualidade por conta da Copa”, argumenta.
Giuliano ainda destaca que a temática do futebol não é inédita nas provas. “Há alguns anos, trouxemos conceitos de geometria analítica e espacial através de uma polêmica que aconteceu na Copa do Mundo de 2022, sobre a bola ter saído ou não do campo em um lance de gol”, conta. O episódio narrado pelo docente diz respeito ao jogo entre Japão e Espanha pela Copa do Mundo do Catar. No gol da vitória japonesa, que acabou eliminando a tetracampeã Alemanha na fase de grupos, a bola dá a impressão de ter saído pela linha de fundo antes do jogador japonês tocar para o companheiro. Na época, o VAR validou a jogada afirmando que a bola não saiu por completo.
O resultado da primeira fase da OMU será divulgado no dia 12 de maio, e a segunda fase será realizada no mesmo mês, em dois momentos: entre os dias 18 a 24 e também de 25 a 31. Na fase 2.1, serão quatro questões dissertativas para serem resolvidas em uma semana, enquanto na fase 2.2, serão duas questões dissertativas a serem realizadas presencialmente na própria escola, em um intervalo de quatro horas.
Em sua 42ª edição, a Olimpíada de Matemática da Unicamp é uma iniciativa do IMECC/Unicamp que se consolidou como uma das competições científicas mais prestigiadas do país. Em sua última edição, mais de 1300 escolas participaram, reforçando o compromisso do projeto em valorizar a matemática na educação básica, principalmente ao promover um ambiente de cooperação entre estudantes e professores e ao aproximar o ensino fundamental e médio da investigação científica universitária.
Redação: Reach Assessoria de Comunicação