Entre os dias 13 e 15 de maio de 2026, a Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), em Recife (PE), sediou o IV Workshop de Mulheres na Matemática (WMM), evento que reúne pesquisadoras de diferentes áreas das ciências matemáticas com o objetivo de promover a divulgação científica, valorizar a produção acadêmica feminina e ampliar o debate sobre questões de gênero na ciência.
Nesta edição, o Instituto de Matemática, Estatística e Computação Científica (IMECC) da UNICAMP teve participação expressiva, com a presença de nove pesquisadoras, entre estudantes de graduação, mestrado e doutorado. Além de apresentarem seus trabalhos, as participantes vivenciaram um ambiente marcado pela troca de experiências, pelo fortalecimento de redes de colaboração e pela reflexão sobre os desafios e as conquistas das mulheres na matemática.
Para a estudante Carolina Rodrigues Menezes, do Bacharelado em Matemática Aplicada e Computacional, a experiência ultrapassou os aspectos acadêmicos. Segundo ela, o evento proporcionou um ambiente singular de inspiração e reconhecimento:
“Estando em um evento matemático em que a voz, experiência e conhecimento de mulheres não somente é maioria, mas também foco, cria-se um ambiente tão favorável à troca com aquelas – professoras, alunas, pesquisadoras, audiência – que estão ali, de uma forma tão respeitosa e acessível, que o pertencimento (como uma mulher na matemática) e a inspiração (para seguir na área, desenvolvendo e ensinando sobre) superam os limites do tempo e lugar do evento.”
O sentimento de pertencimento também foi destacado pela licencianda Raissa Kazue Otsuka Marques, que ressaltou a importância da representatividade na construção de trajetórias acadêmicas mais sólidas:
“No WMM, depois de entrar em contato com pessoas parecidas comigo em certo sentido, que enfrentaram problemas parecidos com os que eu enfrento ou que eventualmente vou enfrentar, o que fica é a sensação de pertencimento. Me fez lembrar que a matemática é lugar de mulher e que, apesar dos pesares, vale a pena continuar.”
Além de proporcionar a divulgação de pesquisas, o workshop criou oportunidades valiosas de diálogo entre estudantes e pesquisadoras em diferentes momentos da carreira. Para a mestranda Isadora Farinacio Camillo, essa convivência foi um dos pontos altos da experiência:
“Estar em um evento organizado por e para mulheres foi muito importante para reforçar que podemos sim ocupar esse espaço, e que existem outras mulheres fazendo pesquisa na nossa área no Brasil todo, e pesquisa de alta qualidade.”
A possibilidade de conhecer pesquisadoras em diferentes estágios da carreira também foi apontada como um dos grandes diferenciais do evento. Para a graduanda Bianca Serpa Castanho, o workshop representou uma oportunidade de enxergar caminhos possíveis para o futuro acadêmico e profissional:
“Foi inspirador ter contado com mulheres bem sucedidas que já passaram pelo caminho que eu passo hoje e ver elas no lugar que eu quero estar um dia. Foi muito bom estar entre outras mulheres Matemáticas, trocar experiências boas e dores em comum que só nós mulheres entendemos.”
A diversidade de experiências presentes no evento foi outro aspecto frequentemente mencionado pelas participantes. A estudante de graduação Marília Alves Goritzki destacou o caráter plural das discussões promovidas ao longo da programação:
“Foi muito gratificante ver o acúmulo e interseccionalidade presentes nas discussões e contribuições do evento – destacando-se os recortes raciais e trans*. Um encontro de mulheres na Matemática, mas uma reunião de muitas vivências.”
Segundo ela, iniciativas dessa natureza desempenham um papel fundamental para o fortalecimento da comunidade científica:
“Tais espaços são essenciais para a saúde da Matemática, sua comunidade e sua permeabilidade à sociedade.”
Além das discussões sobre pesquisa, carreira e representatividade, o evento também permitiu que as participantes conhecessem diferentes realidades acadêmicas do país. Para Isabel dos Santos Fernandes, estudante da Licenciatura em Matemática, a realização do encontro fora da região Sudeste ampliou as possibilidades de diálogo e aprendizado:
“Tive a oportunidade de conhecer melhor como a Matemática vem sendo produzida por mulheres em diferentes regiões do país, nossas semelhanças e diferenças. Infelizmente, é muito fácil encontrar dados que evidenciam a baixa presença feminina nas áreas de STEM ao longo do avanço da carreira acadêmica. Participar de eventos como esse me ajuda a perceber que é possível conciliar o ser mulher, com o fazer matemático.”
Já a estudante Gabriela Bueno de Lima destacou o impacto que o workshop teve em sua formação acadêmica e pessoal:
“Participar do IV Workshop de Mulheres na Matemática não só expandiu conhecimentos na área matemática, como também possibilitou uma grande troca de experiências sobre a figura feminina dentro de um ambiente majoritariamente masculino.”
Ao final dos três dias de atividades, o sentimento compartilhado entre as pesquisadoras do IMECC foi o de que eventos como o WMM desempenham um papel estratégico não apenas para a divulgação da ciência produzida por mulheres, mas também para a construção de uma matemática mais diversa, inclusiva e representativa.
Confira os trabalhos levados ao IV WMM
![]() |
Bianca Serpa CastanhoBacharelado em MatemáticaTítulo: Curvas elípticas e seus pontos racionais Resumo: Apresentou alguns resultados obtidos em sua Iniciação Científica na área de Álgebra e Teoria dos Números, com foco no estudo de curvas elípticas e seus pontos racionais. O trabalho investiga a estrutura algébrica associada às curvas cúbicas não singulares e aborda resultados clássicos da área, como os Teoremas de Mordell e Nagell-Lutz. |
|
![]() |
Carolina Rodrigues MenezesBacharelado em Matemática Aplicada e ComputacionalTítulo: Um estudo sobre redes neurais profundas de valor vetorial para classificação de imagens Resumo: O trabalho apresentou os resultados de sua iniciação científica, com foco na investigação de modelos de redes neurais de valor vetorial e hipercomplexo aplicados ao processamento de sinais e imagens, analisando sua capacidade de reduzir a complexidade computacional sem comprometer o desempenho. Os resultados obtidos indicam que esses modelos podem alcançar desempenho comparável ou superior ao de arquiteturas tradicionais, utilizando menos parâmetros e recursos computacionais. |
|
![]() |
Gabriela Bueno de Lima e Isabel dos Santos FernandesLicenciatura em MatemáticaTítulo: Sophie Germain: uma proposta para o Ensino Médio Resumo: Apresentaram uma comunicação científica desenvolvida no âmbito do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência (PIBID/CAPES). O trabalho discute a persistência das disparidades de gênero nas áreas de Exatas e propõe uma oficina educativa centrada na trajetória e nas contribuições matemáticas de Sophie Germain. A atividade aborda conceitos como os Números Primos de Germain e a Identidade de Sophie Germain, com o objetivo de ampliar o interesse dos estudantes pela matemática e promover a visibilidade das contribuições femininas para o desenvolvimento da ciência. |
|
![]() |
Isadora Farinacio CamilloMestrado em MatemáticaTítulo: Solução fraca para a equação do valor utilizando o Método de Galerkin Resumo: Apresentou um pôster baseado em sua pesquisa de Iniciação Científica sobre o método de Galerkin aplicado à resolução de equações diferenciais parciais, com enfoque na equação do calor. O trabalho aborda técnicas de aproximação de problemas definidos em espaços de dimensão infinita por meio de espaços de dimensão finita, permitindo a obtenção de soluções aproximadas e, posteriormente, de soluções fracas para o problema original. |
|
![]() |
Luana AscoliDoutorado em MatemáticaTítulo: O comportamento assintótico do Número de Hilbert para ciclos limite costurantes Resumo: O trabalho reúne resultados utilizados na demonstração do crescimento estrito do Número de Hilbert para ciclos limite costurantes de campos vetoriais polinomiais planares por partes de grau n, bem como o resultado que estabelece para este o comportamento assintótico de ordem quadrática. A pesquisa integra os estudos desenvolvidos durante o mestrado e o início do doutorado da autora, resultando no artigo "Growth estimate for the number of crossing limit cycles in planar piecewise polynomial vector fields", atualmente em fase de revisão. |
|
![]() |
Marília Alves GoritzkiBacharelado em MatemáticaTítulo: Métodos variacionais e Teoria dos Pontos Críticos: o princípio minimax e outros resultados correlatos Resumo: O trabalho investiga princípios minimax, amplamente utilizados na obtenção de soluções para equações diferenciais por meio da identificação de pontos críticos de funcionais associados. Além de revisar resultados clássicos da área, a pesquisa discute questões teóricas ainda em aberto relacionadas ao Teorema do Passo da Montanha, incluindo condições para a independência de parâmetros na caracterização de pontos críticos. O estudo também propõe reflexões sobre a formulação e a estrutura lógica de determinados teoremas e demonstrações, contribuindo para o aprofundamento dos fundamentos teóricos da área. |
|
![]() |
Paula Cupertino Costa RibeiroDoutorado em MatemáticaTítulo: Superfícies de Riemann com grupos grandes de automorfismos
|
|
![]() |
Raissa Kazue Otsuka MarquesLicenciatura em MatemáticaTítulo: Sistemas dinâmicos lineares por partes em dimensão 2: os casos de 2 e 3 zonas Resumo: A pesquisa de iniciação científica investigou campos vetoriais planares lineares por partes com duas e três zonas, utilizando a convenção de Filippov para analisar o comportamento do fluxo em descontinuidades. Foram estudadas diferentes configurações geométricas das regiões, como retas, semirretas e retas paralelas, e sua influência na dinâmica do sistema. Em particular, o trabalho analisou como a geometria das zonas afeta a quantidade e localização de ciclos limite. |







