No dia 2 de setembro de 2025, o Instituto de Matemática, Estatística e Computação Científica (IMECC) da UNICAMP celebrou um marco que transcende números: a defesa da 500ª tese de doutorado do Programa de Pós-Graduação em Matemática (PPGM).
Para o atual diretor do IMECC, professor Ricardo Miranda Martins, o marco representa muito mais que um número. "Desde 1968, quando a primeira tese de doutorado foi defendida no IMECC, nossa quantidade de doutores formados a cada ano só aumentou", contextualiza. O instituto formou 60 doutores (nas três áreas principais) em 2019, número que caiu para 27 em 2022 devido aos reflexos da pandemia, mas que já se recupera, atingindo 49 formados em 2024. “A comemoração da 500ª defesa de doutorado em matemática é, de certa forma, uma comemoração desta retomada, não só do PPGM, mas também dos outros programas”.
O coordenador atual do PPGM, professor Eduardo Garibaldi, enxerga a 500ª defesa como "a culminação de uma trajetória de excelência construída coletivamente ao longo de quase seis décadas". Para ele, este número "representa uma contribuição única ao conhecimento matemático que, juntas, formam um patrimônio científico que nos enche de orgulho e que consolida o IMECC em sua trajetória rumo ao protagonismo no cenário acadêmico internacional”.
O PPGM
O Programa de Pós-Graduação em Matemática (PPGM) do IMECC tem se destacado nas últimas décadas como um dos principais programas da América Latina para a formação de pesquisadores na área de Matemática e recebido a nota máxima sete (7) nas avaliações externas da CAPES.
Essa reputação se traduz tanto na qualidade das publicações em revistas de prestígio quanto na diversidade dos alunos. O programa conta atualmente com cerca de uma centena de doutorandos, oriundos de diferentes regiões do Brasil e de países como China, Paquistão e diversos países da América Latina. Segundo Garibaldi, “a crescente procura de estudantes do exterior confirma o reconhecimento internacional da qualidade do programa”.
A estrutura institucional também desempenha papel central na sustentação dessa excelência. O diretor do IMECC destaca os investimentos feitos nos últimos anos. “Ao longo destas décadas, o IMECC qualificou o espaço físico para dar suporte a todas as atividades da pós-graduação. Hoje contamos com o Anexo II, prédio de laboratórios, e com o Anexo I, o ‘Predinho da Pós’, que foi recentemente climatizado”. Além disso, a modernização tecnológica possibilitou que o instituto ampliasse o alcance das defesas, com cinco salas equipadas para videoconferência, permitindo a participação de pesquisadores de diferentes partes do mundo.
O ambiente acadêmico é igualmente fortalecido pelo engajamento de servidores e docentes, que garantem o funcionamento das atividades mesmo diante de desafios institucionais. Como sublinha Garibaldi, “a qualidade internacional do IMECC resulta do profissionalismo de funcionários e professores que compreendem profundamente o papel da matemática no desenvolvimento das sociedades”.
O dinamismo do PPGM também se revela em iniciativas coletivas que estimulam a integração entre diferentes áreas. Um exemplo foi a primeira edição do Congresso do IMECC, realizado em julho de 2025, considerado por Miranda um marco recente. “A realização do Congresso, organizado pelos coordenadores de pós-graduação em conjunto com a coordenação de pesquisa, mostra que temos muito a ganhar em fazer ações em conjunto”.
Da 1ª a 500ª tese
No dia 23 de outubro de 1968, acontecia a defesa da primeira tese de doutorado em Matemática no IMECC. O pesquisador e ex-docente do IMECC, Orlando Francisco Lopes, orientado pelo professor Waldyr Muniz Oliva, apresentou seu trabalho “Sistemas dinâmicos multidimensionais”, perante uma banca formada pelos professores Mauro de Oliveira César, Léo Roberto Borges Vieira, Nelson Onuchic e Paulo Boulos.
Se hoje o PPGM ostenta a nota máxima da CAPES e uma rede internacional de colaborações, o caminho até essa consagração foi árduo. O professor emérito Marco Antônio Teixeira, figura central na construção do programa, relembra os percalços dos primeiros anos.
"Em 1985, eu era vice-diretor do IMECC e nossa pós-graduação ainda estava engatinhando. Sabíamos que ela tinha potencial para se tornar um polo atrativo, mas, naquele início, ainda não era reconhecida como um centro de referência. Mesmo assim, eu tinha convicção de que alcançaríamos esse objetivo”.
O grande desafio, naqueles primeiros anos, era construir um programa que unisse ensino e pesquisa em uma frente única, capaz de formar novos quadros ao mesmo tempo em que consolidava a produção científica em Matemática. “Já naquela época florescia a ideia de considerar essa união como inseparável. Em poucas palavras, um orientador de doutorado deve ser um bom pesquisador”, destaca Teixeira.
"Fizemos uma procura ousada por bons pesquisadores e traçamos uma estratégia para conhecer os nossos pontos fracos", explica o professor emérito. O ponto de virada veio em 1989, com a contratação pelo departamento de matemática do professor Djairo Guedes de Figueiredo, que produziu “um salto exuberante de qualidade em nossa pós-graduação", recorda Marco Antônio. Ainda, cita os professores Sebastião de Amorim, Carlos Bartman e Norberto Dachs, figuras fundamentais para a implementação de melhorias no programa de pós-graduação em estatística.
Outro obstáculo eram os atrasos recorrentes no pagamento das bolsas da CAPES e do CNPq aos alunos do curso de verão. “Todo ano, o coordenador de pós-graduação precisava arcar, do próprio bolso, com parte do valor. Mas, com uma certa dose de criatividade e ajuda de colegas do Departamento de Matemática (cito aqui, os professores Jorge Mujica e Orlando Lopes), conseguimos sanar esse ponto rapidamente”.
Uma das estratégias citadas pelo professor para enfrentar o problema, foi a busca de parcerias com o setor privado para viabilizar iniciativas acadêmicas e de extensão. “Conseguimos patrocínio de empresas como a IBM e o Centro das Indústrias de Campinas para o nosso programa de verão. Além disso, essas empresas passaram a distribuir brindes na Olimpíada de Matemática da UNICAMP, o que ajudou a tornar a OMU amplamente conhecida. A Olimpíada, por sua vez, atraiu bons estudantes do colégio, que futuramente se tornaram alunos do IMECC”, destaca. “Para consolidar uma instituição de excelência, não basta contar apenas com bons professores. Uma boa instituição de pós-graduação só sobrevive se tiver bons alunos. Essa foi, portanto, uma fase de crescimento a olhos vistos”.
O resultado desses esforços foi a conquista gradual da nota máxima da CAPES, alcançada a partir do triênio 2001-2003, o que colocou o programa do IMECC em pé de igualdade com o Instituto de Matemática Pura e Aplicada (IMPA). “Na área de matemática, apenas a UNICAMP e o IMPA obtiveram essa distinção por algum tempo”, recorda com orgulho o professor Teixeira.
A quingentésima tese
O marco da 500ª defesa de doutorado do IMECC foi protagonizado por Tiago Emílio Siller, que apresentou a tese “Singularidades Genéricas em Sistemas Refrativos Elípticos”, sob orientação do professor Marco Antônio Teixeira. A banca contou também com a participação do diretor do Instituto, Ricardo Miranda, testemunhando o feito histórico.
"O fato do orientador da 500ª tese do programa ser o professor Marco Antônio, nosso professor emérito, ex-coordenador de pós-graduação e ex-diretor do instituto, é outra feliz coincidência", observa Ricardo Miranda.
Siller é bacharel em Matemática pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) e mestre pela UNICAMP. Sua pesquisa integra a área de sistemas dinâmicos, utilizada na modelagem de fenômenos em diferentes campos, da Física à Biologia. "Na minha pesquisa de doutorado, eu estudei uma propriedade conhecida como estabilidade estrutural de uma classe específica de sistemas dinâmicos chamados de sistemas refrativos. Em outras palavras, eu tento responder à pergunta: 'quais sistemas permanecem basicamente os mesmos, mesmo que sejam ligeiramente modificados?'", explica o pesquisador.
“É uma honra fazer parte da história desse instituto”, destacou Siller ao comentar sobre o impacto de assinar a 500ª tese. Ele acrescentou que "esse marco é muito mais que um número, é o resultado da trajetória de excelência do instituto".
A escolha do orientador também carrega significado: "As características que me fizeram escolher o Marco como orientador foram a sua experiência e a sua importância no desenvolvimento dessa área. O Marco é um excelente pesquisador e uma excelente pessoa e me sinto honrado em tê-lo como orientador".
A base da engrenagem
A marca histórica da 500ª tese de doutorado defendida no IMECC não se explica apenas pela excelência acadêmica de alunos e docentes. Nos bastidores, um trabalho silencioso, mas essencial, sustenta cada conquista: o esforço diário da Secretaria de Pós-Graduação.
Esse trabalho, muitas vezes invisível, como destaca Luciana Veronezi, tem papel estratégico. “Por trás de cada defesa há todo um processo prévio: confirmação de prazos, preparação de documentos, agendamento de salas, suporte tecnológico e solução de imprevistos. Embora discreto, esse esforço é o ponto de equilíbrio que conecta alunos, docentes, coordenação, agências de fomento e instâncias superiores”.
Ao longo dos anos, a equipe acompanhou transformações profundas nos procedimentos internos. Se antes tudo era feito em papel, com atas físicas e CDs, hoje a maior parte dos processos foi digitalizada. O sistema de gestão acadêmica (SIGA), a Plataforma Sucupira da CAPES e outras ferramentas trouxeram agilidade, ainda que com novos desafios. “Uma única defesa podia levar meses para ser homologada. Hoje, concluímos em muito menos tempo”, relembra Ronaldo Sanches.
A internacionalização do programa também ampliou as atribuições da secretaria. A chegada de alunos estrangeiros e a participação em editais internacionais exigiram novas práticas, como emissão de documentos em inglês, suporte a bolsas no exterior e até orientação em questões burocráticas, como renovação de vistos. “Esse movimento trouxe novas camadas administrativas ao nosso trabalho. O que antes era visto como mera burocracia tornou-se mais analítico e estratégico: interpretar normas, orientar alunos e professores, monitorar indicadores e propor soluções para otimizar processos”, explica Veronezi.
Outro ponto ressaltado pela equipe foi a descentralização de atividades antes concentradas na DAC (Diretoria Acadêmica), intensificada com a informatização. Processos que antes passavam por instâncias centrais passaram a ser responsabilidade direta da secretaria do IMECC, como o registro de orientações, exames de qualificação e conferência da documentação dos alunos. “Hoje somos nós que validamos e devolvemos documentos, cobramos ajustes quando necessário e garantimos a conformidade de tudo. A única exceção é a documentação de estrangeiros, mas todo o restante ficou sob nossa responsabilidade”, relata Magali Lopes.
A pandemia de Covid-19 acelerou ainda mais essas mudanças. As defesas passaram a ocorrer online ou em formato híbrido, ampliando o alcance, mas também exigindo novas competências técnicas da secretaria. “Foi um período de reinvenção. Muitas vezes trabalhávamos até tarde da noite para não prejudicar ninguém”, recorda Luciana. Ao mesmo tempo, a experiência trouxe ganhos: a comunicação por e-mail e o uso de sistemas digitais reduziram a dependência do atendimento presencial e gerou mais autonomia para a secretaria.
Em meio às pressões e tensões do período da pandemia, também houve espaço para pequenas válvulas de escape: “Toda segunda-feira de manhã a gente se reunia online, não só para alinhar tarefas, mas também para desabafar, rir um pouco e começar a semana mais leves”, lembra a equipe.
Entre memórias curiosas, a equipe guarda histórias que revelam os desafios enfrentados ao longo dos anos. Houve épocas em que atas de defesa viajavam pelo mundo, algumas até se extraviavam em idas e vindas para o exterior, passando por países como Estados Unidos e China. Em outra ocasião, diante de falhas técnicas, uma defesa precisou ser realizada por audioconferência, sustentada apenas pelo viva-voz de um celular por mais de duas horas. Já em um caso inusitado, uma banca se estendeu das dez da manhã até o fim da tarde, transformando-se quase em um seminário paralelo, para desespero do orientador. Situações como essas mostram que, nos bastidores, o improviso também faz parte da rotina.
Mais que um setor burocrático, a secretaria se consolidou como espaço de acolhimento e apoio. Com a rotatividade de coordenadores e a diversidade de demandas dos estudantes, tornou-se uma referência de continuidade. “Somos meio que os padrinhos. Desde o ingresso do pesquisador até o egresso, acompanhamos cada etapa”, comenta Luciana. Essa proximidade é reconhecida por alunos e professores, que cada vez mais fazem questão de agradecer, seja em palavras, lembranças ou até mesmo nas teses defendidas.
Chegar à 500ª tese é, portanto, também uma vitória coletiva da equipe administrativa. “O que dá satisfação é ver como nosso trabalho impacta na transformação da vida das pessoas”, afirma Rodrigo Riani. Já Ronaldo destaca o sentimento compartilhado pelo grupo: “É uma sensação de dever cumprido. Podemos não ser perfeitos, mas tentamos sempre o melhor, com empatia. Nosso pensamento é: ‘quero fazer dar certo’”.
No fim das contas, orgulho, pertencimento e trabalho em equipe são as palavras que melhor traduzem o momento. Como resume Luciana: “É experimentar a sensação de que todo esforço silencioso nos bastidores se transforma em algo grandioso e deixa um legado científico para nossa instituição”.
Até o próximo marco!
Mais do que um número, a 500ª tese é um ponto de chegada que anuncia novos horizontes. “Quem sabe, em algumas décadas, possamos nos reunir novamente para celebrar a milésima defesa — um desafio que certamente alcançaremos com a mesma dedicação e excelência que nos trouxeram até aqui”, projeta o coordenador Eduardo Garibaldi.
Por: Isabel Pennafirme Ferreira